05 setembro, 2006

sem título #1

quero uma noite com chuva, uma noite longa sem noção de ontem nem de dia de amanhã

uma noite de frio, cortante, a rasgar a carne de modo a ficarmos só nós, de raíz, de pecado original

uma noite daquelas em que andamos sozinhos

de um lado para o outro

(apesar de tudo)

em que paramos
(de repente)

para apertar umas luvas de lã, sentir a gola alta, apertar-me no casaco

(uma noite com muita malha industrial, nada de ligações afectivas)


(que bem soube agarrar-me agora)

depois percebemos onde estamos, olhamos para cima e sentimos picadas de chuva na cara

(não há barba, há quase barba)

e a seguir acendemos uma cigarrilha e agora estou aqui e

e

,,,e onde estou?

(estava onde já estive, onde não volto a estar)